A 3.ª corrida de abono lisboeta anunciava no Campo Pequeno uma noite de sete cavaleiros, dois dos melhores grupos de forcados e a ganadaria Herdeiros de Dr. António Silva.
Ingredientes não faltavam. Interesse, esse, houve pouco. Muito pouco.
Sete toiros, sete problemas
Quem pensava que os Silva apagariam da memória o curro da corrida anterior, desengane-se. Os toiros que saíram dos curros da Monumental voltaram a evidenciar problemas sérios de bravura.
Mansos, agarrados às tábuas e com pouca vontade de investir, comprometeram seriamente o andamento da corrida. Além disso, obrigaram os cavaleiros a procurar soluções onde quase não existiam.
Dos sete, talvez apenas um tenha escapado verdadeiramente à mediania. Foi o último, precisamente quando o público já começava a preparar a saída.
E quando falamos de uma ganadaria com os pergaminhos dos Herdeiros de Dr. António Silva, o sinal de alerta deve estar ligado. O futuro da divisa obriga a reflexão e, provavelmente, a mudanças.
Ainda assim, os sete cavaleiros fizeram o que puderam. Uns melhor, outros assim-assim, todos procuraram encontrar alguma coisa onde praticamente nada existia.
Por isso, esta acabou por ser uma corrida fácil de resumir. Aconteceu pouco. Muito pouco.
Suaram em bica e tourearam o que havia
Paco Velásquez chegava à confirmação da alternativa moralizado pela atuação do dia anterior em Las Ventas. Contudo, calhou-lhe um Silva.
E isso, nesta noite, significou problemas. Muitos problemas.
Esteve empenhado e procurou sacar alguma coisa ao manso. Fê-lo com disposição, mas pouco mais havia para retirar.
Depois, Luís Rouxinol encontrou outro toiro muito complicado. Cedo se refugiou em tábuas e foi preciso insistir para o tirar de lá.
Gilberto Filipe teve pela frente o melhor toiro até então. A sua atuação conseguiu, por momentos, animar um público que procurava desesperadamente motivos para reagir.
Seguiu-se Filipe Gonçalves, diante de um quarto reservado e parado. Empurrou o cavalo para cima do toiro e, com maior ou menor ortodoxia, foi deixando a ferragem.
Quando a corrida parecia ganhar algum alento, apareceu o quinto para Manuel Telles Bastos. E os bocejos voltaram a dominar o Campo Pequeno.
Sem qualquer vontade de investir, o toiro obrigou o cavaleiro da Torrinha a suar as estopinhas para cumprir a sua lide.
Se o de Bastos foi mau, pior ainda foi o toiro que saiu para Andrés Romero. O espanhol teve igualmente dificuldades e ainda esteve desacertado na cravagem.
Por fim, chegou Vasco Veiga. O praticante vem demonstrando evolução, como já tinha acontecido nas Caldas da Rainha.
Além disso, apresentava-se pela primeira vez no Campo Pequeno. E, em boa hora o fez.
Veiga rubricou a lide mais séria da noite. Teve atitude, procurou o toiro e conseguiu colocar dois ferros entrando pelo toiro dentro, dando finalmente alguma vida à corrida.
Vila Franca superior nas pegas
Nas pegas, a história foi bem diferente.
O Grupo de Montemor esteve abaixo dos seus pergaminhos. Miguel Cecílio e Vasco Ponce concretizaram as respetivas pegas à terceira tentativa, enquanto Joel Santos precisou da quarta.
Fora de concurso, José Maria Cortes Pena Monteiro acabou por lavar a cara do grupo com um pegão à primeira tentativa.
Se tivesse surgido numa das três pegas de concurso, entraria seguramente na discussão pela melhor da noite.
Do outro lado, Vila Franca esteve claramente superior.
Miguel Faria, Guilherme Dotti e Rodrigo Andrade pegaram os três toiros à primeira tentativa. Além disso, Rodrigo Andrade fechou a noite com chave de ouro.
Foi uma grande pega, marcada também por uma extraordinária primeira-ajuda de Rodrigo Dotti, futuro cabo dos Amadores de Vila Franca.
O forcado acabou chamado à arena para receber a merecida ovação. E, pouco depois, viria outro momento especial da noite.
Vila Franca ganhou o Troféu Manuel Trindade
O júri, constituído pelos cabos dos dois grupos, entregou justamente o primeiro Troféu Manuel Trindade a Rodrigo Andrade.
A entrega teve ainda um momento particularmente bonito.
Pedro Trindade, pai do saudoso Manuel, entregou o troféu ao forcado de Vila Franca. No entanto, Rodrigo Andrade fez questão de que o galardão ficasse para a família do forcado de São Manços.
Foi um gesto simples, mas de enorme significado.
Um gesto que valeu muito mais do que qualquer discurso e que acabou por ser um dos momentos mais marcantes de uma noite que, dentro da arena, teve pouco para oferecer.
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