Falar das Festas do Barrete Verde e das Salinas, em Alcochete, é trazer à memória as suas gentes. Algumas delas, tenho o privilégio de considerar amigas.
Por isso, regressar a Alcochete tem sempre um sabor especial. Ainda mais quando a Feira do Toiro-Toiro abre com um mano a mano entre João Moura Jr. e Francisco Palha. Dois dos mais destacados cavaleiros portugueses da atualidade e que, no fundo, não precisam de grandes apresentações.
Se Moura Jr. segue na frente do pelotão, Palha não lhe fica muito atrás. Ambos estão, seguramente, entre os melhores executantes da arte de marialva à portuguesa. Além disso, há uma característica que os aproxima. Não são toureiros de catálogo. Toureiam o que lhes colocam pela frente.
E isso, para quem gosta de toureio com impacto e emoção, vale muito. Posto isto, vamos ao que realmente interessa.
A seriedade dos Joaquim Brito Paes
Depois do que tinha visto na noite anterior, confesso que cheguei a Alcochete com alguma expectativa. A corrida anterior tinha-me deixado desiludido, por isso, esperava uma resposta diferente dos Joaquim Brito Paes. E, felizmente, não saí defraudado.
Da Herdade do Monte Velho chegaram seis exemplares com presença. Tinham trapio e pesos entre os 530 e os 580 quilos. Mais importante ainda, permitiram que os cavaleiros estivessem por diante.
Não foram toiros perfeitos. Também não precisava que fossem. Trouxeram, contudo, a seriedade necessária para uma corrida desta importância. E, sobretudo, permitiram que Moura Jr. e Palha mostrassem aquilo que sabem fazer.
Deu empate
O mano a mano começou quente.
Tanto João Moura Jr. como Francisco Palha foram à porta gaiola, sendo essa uma forma clara de dizer ao que vinham. No entanto, a verdade é que nenhum dos dois precisa de provar grande coisa.
Andam sobrados. Têm capacidade lidadora. Possuem cavalos capazes de resolver diferentes problemas. E, acima de tudo, arriscam. Muito.
De João Moura Jr. ficou-me na retina, sobretudo, o segundo toiro do seu lote. Com o Jet-Set, o cavaleiro de Monforte aproveitou as características do Joaquim Brito Paes e cravou os curtos com critério e precisão.
Depois, terminou a atuação com um palmo. Foi um momento de grande exposição. E merece, por isso, todos os créditos.
Do outro lado, Francisco Palha voltou a mostrar de que é feito um toureiro de verdade.
A sua primeira atuação foi bonita. Depois, no segundo toiro, deixou alguns dos melhores ferros da corrida. Tudo parecia encaminhado para mais uma grande atuação.
Até chegar o último toiro.
Na remate do ferro da porta gaiola, o Joaquim Brito Paes agarrou Palha de forma violenta. O impacto foi suficiente para o projetar para fora da arena.
A queda na trincheira foi aparatosa. Por momentos, o silêncio tomou conta da praça. Palha levantou-se visivelmente combalido. Coxeava. Ainda assim, voltou a montar. E regressou à arena.
Foi aí que se agigantou.
Diante de um bravo Joaquim Brito Paes, Palha voltou a assumir o risco. O toiro arrancava-se de praça a praça. Cada ferro ganhou, por isso, uma dose extra de emoção. Nem todas as sortes saíram perfeitas. Mas trouxeram algo que tantas vezes faz falta na Festa. Imprevisibilidade. E só isso já merece reconhecimento.
No final, ficou a sensação de empate.
Moura Jr. teve momentos de enorme qualidade. Palha respondeu com a raça que o caracteriza. Nenhum saiu diminuído. Pelo contrário.
Amadores de Alcochete foram profetas na sua terra
Nos forcados, a corrida teve duas histórias completamente diferentes.
De um lado, os Amadores de Lisboa encontraram dificuldades e precisaram de oito tentativas para concretizar as três pegas.
Do outro, os Amadores de Alcochete três toiros, três pegas à primeira. Foram, profetas na sua terra.
Pelos Amadores de Lisboa, foram à cara Ricardo Nunes, à quinta tentativa, Tiago Silva, à segunda, e Duarte Nascimento, à primeira.
Pelos Amadores de Alcochete, pegaram Miguel Cruz, Pedro Nascimento e Vítor Marques.
E é precisamente aqui que entra uma pequena história pessoal. Um dos forcados que pegou ontem, chama-se Vítor Marques. Para os mais próximos, é simplesmente o Tascas.
Nos últimos anos, temos mantido uma tradição. Almoçamos juntos no domingo do Concurso de Ganadarias. Este ano não será exceção. Porque Alcochete também é isto. São os toiros, os cavalos e os forcados. Mas são, sobretudo, as pessoas.
E talvez seja essa a melhor forma de explicar porque é que as Festas do Barrete Verde e das Salinas continuam a ser um lugar especial. No fim de contas, uma corrida pode acabar quando sai o último toiro. As amizades, felizmente, ficam.
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