Tal como escrevi sobre a corrida de domingo, a Palha Blanco é, reconhecidamente, a Praça de Toiros mais exigente em Portugal.

Esse estatuto faz dela, quiçá, o último reduto do bom aficionado. É uma praça pesada para cabeças de cartaz e muito mais ainda para subalternos. Aqui, cada capotazo a mais gera imediatamente um burburinho. Cada facilidade é denunciada e cada erro é notado. Mas há também o outro lado. Quando se faz bem, valoriza-se. Porque numa praça onde pouco é oferecido, aquilo que realmente merece aplauso ganha outro sabor.

António Prates sentiu-o na última terça-feira. Duas lides distintas, duas respostas diferentes, mas uma certeza: o cavaleiro de Vendas Novas tem valor e a Palha Blanco soube reconhecê-lo.

Ainda assim, a noite não era essencialmente de Prates.

Era dos Forcados Amadores de Vila Franca.

A Terça-Feira Noturna e a exigência da Palha Blanco

A Terça-Feira Noturna é, ano após ano, a noite de Exaltação ao Forcado Vilafranquense. Em 2026, teve ainda um significado especial. O Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca de Xira mudou de cabo, com Vasco Pereira a entregar o testemunho a Rodrigo Dotti.

Uma mudança de liderança numa noite que, por tradição, já pertence aos homens da jaqueta. E talvez por isso fizesse ainda mais sentido que a corrida tivesse como matéria-prima seis Veiga Teixeira sérios, exigentes e claramente escolhidos a dedo para a Palha Blanco.

Recordo uma conversa de há alguns anos, num almoço com os forcados de Vila Franca. Por uma dessas sortes da vida, sentei-me em frente a Jorge Faria, antigo cabo do grupo. O Jorge é um brilhante orador e a maneira como se expressa é fascinante. Provavelmente ele nem se recordará disto, mas falámos, entre outras coisas, da exigência da Praça de Vila Franca de Xira e da importância de fazer sair dos currais toiros capazes de provocar uma reacção na bancada. Ficou-me uma frase quando falava sobre valor de quem se coloca por diante: “Não consigo fazer o que aquele tipo faz.” E outra, ainda mais significativa, sobre a importância do toiro naquilo que acontece na arena: “Se os toiros forem sérios, não se comem pevides, nem se fala.”

Na terça-feira, os seis exemplares de Veiga Teixeira trataram de cumprir a parte que lhes cabia. Foram sérios, exigentes e colocaram em sentido todos os que se puseram diante deles. E, na bancada, reinou o silêncio e em boca cerrada não há espaço para comer pevides.

João Salgueiro encontrou a casta no primeiro

João Salgueiro abriu praça e foi precisamente no primeiro do seu lote que encontrou os seus melhores momentos.

O Veiga Teixeira não era um toiro fácil. Era daqueles que secam a boca a qualquer um. Salgueiro deixou o génio de lado e trouxe para a arena uma coisa que tanta falta faz à Festa: casta. No final, ficou uma sensação de superação. E, numa praça como a Palha Blanco, isso vale muito.

No segundo do seu lote, abriu o quarteio com demasiada antecedência, acabando por deixar a ferragem maioritariamente à garupa.

João Moura Jr. aproveitou o melhor toiro da noite

João Moura Jr. teve um sorteio completamente distinto.

No segundo da noite, deixou ferragem sem brilho perante a constante distração do toiro. No quarto, porém, a sorte mudou e o cavaleiro de Monforte não se fez rogado. O bom toiro da Herdade do Pedrogão deixou-se lidar por todos os lados e João Moura Jr. aproveitou para galvanizar as bancadas.

No toureio essencial, esteve igual a si próprio. Mas foi sobretudo depois dos ferros que colocou a Palha Blanco em alvoroço. Foram incontáveis as voltas que permitiu que o Universal 945 desse na sua garupa, tanto do Jet-Set como do Qualvito, que encerrou a lide.

No final, o maioral da ganadaria deu a volta consigo.

António Prates confirmou o valor em Vila Franca

Já o tinha escrito anteriormente: António Prates tem valor e em Vila Franca, voltou a prová-lo.

No primeiro do seu lote esteve inspiradíssimo e assinou, provavelmente, os melhores ferros da corrida. O cavaleiro de Vendas Novas é destemido. Coloca os cavalos a entrar pelos toiros dentro. E, na Palha Blanco, essa característica é por demais valorizada. Foi uma lide de entrega e de verdade. Daquelas em que se percebe que o cavaleiro está ali para apertar.

No toiro que encerrou a corrida, Prates optou por um conceito mais desprendido, e consequentemente, a resposta das bancadas não teve a mesma força.

Rodrigo Dotti recebeu o testemunho

Abriu a Terça-Feira Noturna Rodrigo Andrade, um forcado com uma eficiência irrepreensível — que já leva 11 toiros consecutivos pegados à primeira tentativa — teve, desta vez, de ir ao sítio da verdade. O Veiga Teixeira insistia em ficar agarrado às tábuas e obrigou o forcado a encontrar solução. Este sacou-se bem, contando com uma enorme primeira ajuda de Rodrigo Dotti.

Para a segunda pega, foi chamado Lucas Gonçalves.

Regressado de lesão e com apenas um toiro pegado durante este ano, teve de ir duas vezes à cara do Veiga Teixeira. Poderoso, recuou-lhe na cara com enorme brio, mas na primeira tentativa, acabou por cair no seio do grupo. À segunda, melhor ajudado, concretizou a pega.

A terceira pega era especial.

Vasco Pereira brindou aos seus companheiros antes de citar bonito e se agarrar com garbo e técnica à primeira tentativa.

O cabo que entregava o comando do grupo despedia-se da função da melhor maneira possível.

Vasco Carvalho e Guilherme Dotti resistiram à exigência

Vasco Carvalho foi o escolhido para o quarto da ordem.

Depois de, na primeira tentativa, sair do toiro inanimado, levantou-se ainda em itálico para encastado, lhe voltar à cara. Na segunda tentativa, arrancou mais uma belíssima pega.

Guilherme Dotti, sentiu a exigência dos Veiga Teixeira e teve a tarefa mais complicada do seu grupo. Só à quarta tentativa conseguiu concretizar a pega, com ajudas carregadas.

Rodrigo Camilo fechou a noite com um pegão

Rodrigo Camilo é outro dos forcados vilafranquenses que atravessa um grande momento.

Se no domingo havia pegado um toiro de 720 quilos, na terça-feira, fechou a noite do grupo de Vila Franca. E fê-lo à primeira tentativa, com um pegão!

Com outra enorme ajuda do novo cabo, Rodrigo Dotti, que começava assim a escrever a primeira página da sua história enquanto líder do Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca de Xira.

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