A Corrida Mista do Sítio da Nazaré voltou a afirmar-se como uma das datas de maior prestígio da temporada portuguesa. Pelo terceiro ano consecutivo, a Doses de Bravura recebeu uma figura maior do toureio a pé, reforçando uma estratégia que tem vindo a devolver protagonismo às corridas mistas.
Depois de Borja Jiménez, em 2024, e de Morante de la Puebla, em 2025, no sábado era a vez de Daniel Luque debutar na arena do Sítio, lidando toiros de David Ribeiro Telles. Completava o cartel a cavalo Francisco Palha e Guillermo Hermoso de Mendoza. Os toiros de Passanha eram pegados pelos Grupos de Forcados Amadores de Santarém e Aposento da Moita.
Mas pasmem-se, é que ao contrário dos anos anteriores, os nazarenos não consideraram o cartel apelativo, e apenas cerca de meia casa estava preenchida com aficionados. Sim, mas leram bem, a corrida foi de e para aficionados, e quem esteve no Sítio recordará a corrida por vários fatores.
Daniel Luque – Toureio caro na Nazaré
Frente a dois exemplares da ganadaria David Ribeiro Telles, nobres, encastados e com qualidade nas investidas, Daniel Luque construiu duas faenas de enorme conteúdo artístico, ainda que diferentes em quase tudo.
Embora o primeiro tenha chegao aplumado à faena de muleta, tinha fundo e recorrido, e como dizem os mais antigos “A oportunidade faz o ladrão” e desta vez, o roubo de muletazos tiveram selo da marca da casa. Luque aproveitou as características do oponente para se acercar dele e com a mão baixa, as tandas foram intermináveis. No entanto a faena demorou a descolar, deixando uma palavra de apresso para os aficionados da Nazaré.
Como sabemos, por vezes as corridas não estão a gosto, e este toiro em particular, podia ser um desses casos. No entanto, o público soube apreciar o labor do sevilhano e no final as bancadas rugiram com a lide de Luque.
O segundo foi em tudo diferente ao irmão de camada. Apesar de colocar a cara en su sítio o Ribeiro Telles foi brusco de saída, no entanto revelou qualidade logo perseguiu o percal do bandarilheiro lidador no segundo tércio, seguindo o percal pela esquerda, num capotazo eterno.
Desde o início, Luque assumiu a lide com serenidade e autoridade, levou o toiro cosido à muleta, ligando séries de grande profundidade e desenhando naturais e derechazos de fino recorte.
A cada investida, o sevilhano revelou uma leitura perfeita das condição do oponente. Nunca acelerou desnecessariamente a faena. Pelo contrário, soube dar tempo ao toiro, templando cada investida e impondo sempre o seu ritmo.
Foi precisamente essa capacidade de dominar os tempos da lide que conquistou o público da Nazaré. As ovações sucederam-se ao longo da atuação e culminaram numa merecida volta à arena, partilhada com António Ribeiro Telles, responsável pela ganadaria.
Francisco Palha voltou a conquistar a Nazaré
Se Daniel Luque assinou o momento mais marcante da noite, Francisco Palha voltou a confirmar o extraordinário momento que atravessa. Como sabemos, Francisco foi sempre um cavaleiro de risco máximo e nem sempre as lides lhe saem redondas. No entanto, tanto eu como o público, apreciamos a maneira como este se expõe a cada ferro.
Perante dois exigentes exemplares de Passanha, o cavaleiro mostrou maturidade, confiança e uma notável capacidade de leitura das lides. No primeiro, encontrou um oponente de enorme qualidade. A partir daí, construiu uma atuação onde tudo surgiu ligado. A brega foi exemplar, os terrenos criteriosamente escolhidos e a reunião aconteceu sempre com verdade e emoção.
Já no quinto da ordem, perante um toiro menos colaborante, Palha voltou a evidenciar uma enorme entrega. Ainda que o oponente exigisse outro tipo de abordagem, nunca deixou de procurar a emoção, arrimando-se sempre que a lide o permitiu.
Mais uma vez, saiu da Nazaré com o estatuto reforçado de um dos cavaleiros mais acarinhados pelo público desta praça.
Guillermo Hermoso de Mendoza respondeu com categoria
Ter o nome Hermoso de Mendoza acarreta responsabilidade, e após Pablo se ter retirado, Guillermo tem revelado bagagem para continuar o legado. Os recentes triunfos, sendo Pamplona o caso mais visível, são a prova disso. Na sua única atuação da temporada portuguesa em 2026, Guillermo Hermoso de Mendoza voltou a demonstrar porque neste momento é uma referência do toureio equestre.
Guillermo encontrou dois toiros com transmissão e aproveitou-os de forma inteligente, construindo as lides com grande eficácia. A brega é bonita, as reuniões são limpas, a colocação dos ferros precisa e os remates junto ao toiro entusiasmaram o conclave, no entanto, o aficionado em Portugal quer ver maior proximidade com o hastado, o que consequentemente transmitirá maior risco. No primeiro, deu a volta à praça com o ganadero Diogo Passanha.
Os forcados responderam perante um curro exigente
Como seria expectável, os Passanha não facilitaram o trabalho às jaquetas de ramagens.
O Grupo de Forcados Amadores de Santarém consumou ambas as pegas ao terceiro intento, por intermédio de Francisco Cabaço e João Faro.
Já o Grupo de Forcados do Aposento da Moita revelou maior eficácia. Salvador Coimbra consumou a única pega ao primeiro intento da noite, enquanto Rodrigo Aranha fechou a prestação do grupo à segunda tentativa.
Nota: Todos os direitos reservados das fotografias da corrida de Paio Pires. Sendo punível por lei, é proibida a reprodução total ou parcial das fotos sem autorização.
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