Uma tarde que pediu entrega
A II Corrida de Toiros Raízes Vivas colocou em praça três nomes ligados à nova geração do toureio a cavalo: Luís Rouxinol Jr., Luís Pimenta e o praticante Vasco Veiga, diante de seis toiros da ganadaria João Ramalho.
Integrada no programa do Festival Raízes Vivas, a corrida assumiu também uma componente solidária, com as receitas destinadas ao Santuário do Santíssimo Milagre.
Por isso, fica desde logo uma palavra de apreço à organização pelo esforço em concretizar a iniciativa e em manter os toiros presentes na programação.
Depois, dentro da arena, seriam os toiros a ditar grande parte da história.
Luís Rouxinol Jr. encontrou o lote mais regular
Luís Rouxinol Jr. abriu a tarde e encontrou aquele que acabaria por ser o lote mais homogéneo da corrida.
O jovem cavaleiro, como tem sido seu apanágio, mostrou vontade desde os primeiros momentos e procurou encontrar as melhores soluções perante o toiro que tinha pela frente.
Sem encontrar facilidades absolutas, soube adaptar o seu toureio às características de cada toiro e retirar deles aquilo que tinham para oferecer.
Cumpriu nas duas lides, mostrando um toureio ajustado às condições dos seus oponentes, procurando sempre a melhor resposta. Foi uma prestação regular, sem grandes picos de emoção, mas muito segura dentro do que a corrida lhe permitiu.
Luís Pimenta encontrou o melhor momento da tarde
Depois de Rouxinol Jr., entrou em praça Luís Pimenta, ainda a viver os primeiros capítulos da sua nova condição de cavaleiro de alternativa.
O primeiro toiro não lhe proporcionou grandes possibilidades para construir uma lide de maior expressão.
O Toiro ofereceu pouco espaço para que o jovem cavaleiro de Almeirim pudesse desenvolver todo o seu toureio e o cavaleiro teve de trabalhar dentro das limitações que encontrou.
No segundo do seu lote, as coisas foram diferentes.
O toiro apresentou melhores condições e permitiu a Luís Pimenta mostrar mais do seu conceito. O jovem cavaleiro aproveitou a oportunidade, cravou bons ferros e foi crescendo ao longo da lide.
E houve um momento que acabou por sobressair: o último ferro.
Pela forma como foi executado e pela emoção que levou às bancadas, ficou como um dos momentos mais fortes da tarde. Foi daqueles ferros que levantam o público e que, mesmo depois de terminada a corrida, permanecem na memória de quem os viu.
Vasco Veiga perante o lote mais difícil
A fechar a ordem de lide esteve o praticante Vasco Veiga, que teve pela frente, os dois toiros que menos condições ofereceram para o brilho do toureio a cavalo.
O lote não lhe permitiu encontrar as mesmas oportunidades que tiveram os restantes cavaleiros. Ainda assim, Vasco Veiga mostrou atitude e procurou responder às dificuldades, tentando tirar partido dos poucos momentos que os animais lhe concederam.
Nem sempre o cavaleiro tem pela frente o toiro que precisa para mostrar tudo aquilo que sabe. Desta vez, Vasco Veiga encontrou precisamente essa dificuldade.
Toiros que não facilitaram nas pegas
Se para os cavaleiros a corrida apresentou comportamentos diferentes, também nas pegas os toiros de João Ramalho colocaram algumas dificuldades.
Os Amadores de Santarém e os Amadores do Aposento da Moita tiveram uma tarde exigente, perante animais que nem sempre facilitaram a reunião e que obrigaram os homens da jaqueta a procurar soluções.
Além disso, os dois grupos apresentaram em praça formações que trouxeram consigo a responsabilidade de dar oportunidade a novos elementos.
Numa corrida em que os toiros também não facilitaram, essa conjugação acabou por tornar algumas pegas particularmente trabalhosas.
Ainda assim, houve entrega, insistência e MUITO espírito de grupo.
E é precisamente nesses momentos menos fáceis que também se mede a capacidade de um grupo de forcados para ultrapassar as dificuldades.
Porque uma pega nem sempre se resume ao resultado final.
Há todo um trabalho colectivo antes da reunião, a forma como o forcado da cara enfrenta o toiro e, depois, a capacidade dos restantes elementos para fechar a pega.
Um curro desigual em comportamento
Os toiros apresentaram-se bem dentro do tipo de praça e com uma presença adequada ao recinto.
Contudo, o comportamento em praça foi bastante diferenciado.
Uns ofereceram mais possibilidades, enquanto outros complicaram claramente a tarefa de quem os tinha pela frente.
Essa desigualdade acabou por marcar o ritmo da corrida e condicionou, naturalmente, aquilo que cada cavaleiro conseguiu construir.
Ainda assim, houve vontade, houve procura e, sobretudo, houve a tentativa de aproveitar cada oportunidade.
Afinal, é também essa capacidade de contrariar as condições do toiro que distingue uma tarde de outra.
Uma iniciativa que merece reconhecimento
A afluência do público ficou, naturalmente, aquém do ambiente que uma organização procura quando decide avançar com uma corrida de toiros.
No entanto, mais importante do que transformar esse dado numa leitura negativa é reconhecer o trabalho que esteve por trás da realização do festejo.
Organizar uma corrida implica disponibilidade, recursos, logística e, acima de tudo, vontade de levar o espetáculo taurino ao público.
Por isso, fica o nosso reconhecimento a todos os que contribuíram para que esta tarde acontecesse na Ribeira de Santarém.
Como escreveu Miguel Torga, “o que importa é partir”. E, neste caso, importa também continuar a criar condições para que a tauromaquia possa chegar a novos espaços e mais públicos.
Uma tarde para guardar em fotografia
A Ribeira de Santarém viveu uma tarde de calor, com três jovens cavaleiros a procurar o triunfo perante um curro de comportamento desigual e dois grupos de forcados que tiveram de trabalhar bastante para levar as pegas a bom porto.
Luís Rouxinol Jr. encontrou o lote mais regular e soube dar-lhe a volta; Luís Pimenta encontrou no seu segundo toiro o melhor momento da tarde, com destaque para o último ferro; e Vasco Veiga enfrentou os dois toiros que menos lhe permitiram mostrar o seu toureio.
No final, ficam os momentos vividos dentro da arena.
E ficam também as imagens.
Porque uma corrida termina quando o último toiro sai da praça, mas a fotografia permite que aqueles instantes continuem vivos muito depois de o silêncio regressar à arena.
Fique com a reportagem fotográfica:
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