Uma praça para dizer o adeus

Em Gustine, a 14 de setembro, no Bella Vista Park, voltou a receber a tauromaquia de raízes portuguesas. Mas desta vez havia algo diferente no ambiente.

A praça apresentou-se muito bem composta, praticamente cheia, com um público que não escondeu o carinho por Paulo Jorge Ferreira.

Durante mais de duas décadas, o cavaleiro de Azambuja construiu na Califórnia uma parte importante da sua vida e do seu percurso taurino. A corrida que agora fica para a história marcou o fim dessa caminhada nas arenas norte-americanas.

O ambiente foi, por isso, inevitavelmente emotivo. Mas não deixou de ser uma tarde de festa. E talvez tenha sido precisamente essa conjugação que tornou a despedida tão especial.

Como escreveu José Saramago, “Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos.”

Na arena de Gustine, Paulo Jorge Ferreira levou consigo uma memória construída ao longo de 21 anos e deixou, perante aquela comunidade, o testemunho de uma história que não termina quando se despe a casaca.

Marcos Bastinhas e Francisco Palha deram brilho à despedida

O cartel juntou dois nomes portugueses que aceitaram o desafio de estar ao lado de Paulo num momento tão particular.

Marcos Bastinhas e Francisco Palha não foram a Gustine apenas para preencher um cartel.

Entraram em praça para tourear, para dar importância à corrida e para contribuir para que a despedida tivesse dimensão taurina. E assim aconteceu.

Ambos deixaram uma imagem muito positiva, emprestando dinâmica, entrega e personalidade às suas lides.

A presença dos dois cavaleiros ajudou a que a tarde não ficasse limitada ao lado sentimental da ocasião. Houve toureio, houve competição e houve vontade de marcar a corrida.

Francisco Palha, com a sua expressão própria de toureio, e Marcos Bastinhas, sempre muito ligado à intensidade e ao compromisso com o público, souberam corresponder ao significado da tarde.

Azambuja e Turlock: duas jaquetas, uma mesma história

Nas pegas, a corrida ganhou outro significado.

De um lado, os Forcados Amadores de Azambuja, a terra natal de Paulo Jorge Ferreira. Do outro, os Forcados Amadores de Turlock, o grupo da comunidade que o acolheu durante tantos anos. Os dois grupos estiveram capitaneados por João Gonçalves e George Martins Jr., respetivamente.

Mais do que uma simples distribuição de pegas, estava ali representada uma ligação entre duas margens do Atlântico.

Os Amadores de Azambuja viajaram de Portugal para acompanhar o seu conterrâneo. Os de Turlock “fizeram-no em casa”, perante uma comunidade que também ajudaram a manter ligada às tradições portuguesas.

E a ocasião tinha ainda um significado acrescido para o grupo californiano, que assinala este ano 50 anos de existência.

As pegas foram, naturalmente, vividas com o compromisso que caracteriza quem se coloca de frente para o toiro.

Cada grupo assumiu o seu papel numa tarde que exigia concentração, entreajuda e respeito pelo momento.

Seis toiros, uma última tarde

O curro que saiu à arena de Gustine repartiu-se entre três toiros da Ganadaria Açoreana e três de Joe Alves & John Silveira, duas procedências ligadas à realidade ganadeira luso-americana.

Paulo Jorge Ferreira teve pela frente dois toiros com comportamentos completamente distintos.

O primeiro da sua ordem de lide não acompanhou como seria desejável e acabou por condicionar e, muito, a expressão do cavaleiro. Ainda assim, Paulo não baixou os braços e procurou tirar partido das condições que tinha pela frente.

Na segunda lide, a história foi diferente. O toiro cumpriu com os mínimos exigidos e permitiu ao cavaleiro encontrar outras condições para se expressar.

Paulo aproveitou a oportunidade e pôde, finalmente, viver a despedida das arenas californianas com o toureio e a entrega que merecia aquele momento.

Não foi uma despedida construída sobre facilidades.

Foi, antes, uma despedida feita à medida da própria tauromaquia: com o toiro a ditar as regras, com o cavaleiro a procurar respostas e com a arena a reconhecer quem ali deixava uma parte importante da sua história.

E talvez tenha sido precisamente esse segundo toiro que permitiu fechar o ciclo de uma forma mais bonita.

Depois de tantos anos de profissão, Paulo Jorge Ferreira teve a possibilidade de se despedir em praça deixando a sua marca, perante um público que o acompanhou, acarinhou e reconheceu ao longo de toda a tarde.

A bandeira de uma terra, nos ombros de dois amigos

No final, a emoção tomou conta da arena.

Paulo Jorge Ferreira carregou consigo a bandeira da sua terra natal, Azambuja.

Era mais do que um símbolo. Era a imagem de um homem que saiu de Portugal, atravessou um oceano e encontrou na Califórnia um lugar onde construiu uma carreira, amizades e uma vida ligada ao cavalo e ao toiro.

Depois, veio um dos momentos mais fortes da tarde.

Paulo saiu em ombros, levado por Marcos Bastinhas e Francisco Palha, numa imagem que resume a amizade que esteve na origem deste cartel e o respeito que marcou aquela despedida.

Antes disso, outras homenagens tinham já marcado a tarde. Entre elas, o momento em que Paulo chamou à arena George A. Martins para lhe retirar a casaca pela última vez — gesto carregado de significado para a história que ambos construíram na Califórnia.

A arena despediu-se de Paulo Jorge Ferreira com aplausos.

E talvez seja essa a melhor forma de terminar uma história taurina: com a arena de pé, a bandeira levantada e um homem entre amigos.

Porque a corrida acabou.

A carreira nas arenas da Califórnia também.

Mas a história que Paulo Jorge Ferreira escreveu na Califórnia fica para SEMPRE!

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