Há tardes de toiros que ficam na memória por um toiro, um ferro, ou uma pega. No domingo, em Alcochete ficou por Miguel Direito.
O forcado dos Amadores de Alcochete foi um verdadeiro herói na pega do último da corrida. E não porque tivesse tudo a favor. Muito pelo contrário. Depois de várias tentativas de cernelha, de muita luta junto às tábuas e mais de 20 minutos de pelos en punta para muitos aficionados, Direito visivelmente combalido, levou de vencido, ao terceiro sesgo, o Passanha, extra-concurso.
Foi daqueles momentos, que honrar uma jaqueta, vale mais do que o próprio corpo. Em que a dor é palpável, mas a alma não permite ir embora, e tal como diz o fado “Pegas com palmas e bravos, porque há forcados por toda a parte.“
Alcochete voltou a mostrar porque é terra de forcados
Mas, para quem pensa que a pega de Miguel Direito apagou as outras cinco, desengane-se. Muito bem pelo contrário. Foi apenas o epílogo do que foi uma tarde, ou digo antes, uma Feira, muito bem conseguida. Em fase de renovação, as opções nos Amadores de Alcochete não abundam. Faz parte, e qualquer grupo de forcados passa por isso. Os miúdos precisam de corridas e toiros para pegar, para ganharem sítio. E quando os toiros são duros, como vem acontecendo nas corridas em 2026, não permitem muitos erros. E esses, quando acontecem, acabam por se pagar caro. Mas adiante.
As cinco pegas de caras que antecederam aquele momento reafirmaram a grandeza dos Amadores de Alcochete.
Miguel Cruz consumou à segunda tentativa. João Pereira resolveu à primeira. Pedro Nascimento à primeira. O cabo António José Cardoso consumou à segunda, com uma brilhante ajuda de Gonçalo Catalão. Por fim, Vitor Marques fechou as pegas de caras à primeira tentativa.
Grande tarde dos Amadores de Alcochete.
Seis toiros, duas grandes referências
O Concurso de Ganadarias de Alcochete mantém o estatuto de uma das tardes mais prestigiadas da temporada.
Num ano em que proliferaram concursos por quase todas as praças, Alcochete continua diferente. Perante a história e importância do Concurso, que cumpria o 44º ano, os ganaderos primaram por levar a vila ribeirinha, toiros da melhor reata e com mais trapio da camada.
Esse facto fez com que dos curros da Praça saíssem Toiros, no entanto, alguns tinham teclas, outros denotaram sentido e um deles mansidão. Estou a falar do toiro de Lopes Branco, que para o cavalo não investia, mas tinha uma atitude completamente diferente quando o bandarilheiro Ricardo Alves Pagá, se colocava de frente. O diretor de corrida perante tal mansidão, decidiu em prol do espetáculo, e apesar de ser algo invulgar, ou quiçá nunca antes visto, mandar recolher o toiro.
Ganhou o prémio de Bravura o de David Ribeiro Telles, mas se o prémio fosse para o Passanha, que ganhou o de Apresentação, não tería sido um escândalo. O Ribeiro Telles teve fijeza, foi sério e Passanha, era um toiro alegre, com arrancadas de praça a praça, daqueles que se veem pouco.
Fernandes, o melhor da terna
Rui Fernandes, acabou por ser o mais regular dos três cavaleiros. Se no primeiro não houve sem grandes destaques, no segundo a história foi outra. O Cunhal Patrício foi um toiro, que exigia colocação e frontalidade. Fernandes deu-a. Nos dois últimos curtos, abordou o toiro de forma mais verdadeira e frontal, o cavalo rodou na cara do toiro, afrontando-o e os ferros caíram na perpendicular. Que bonito é ver tourear a cavalo à portuguesa.
João Ribeiro Telles, que vem fazendo uma grande temporada, passou por Alcochete em plano regular. Boa brega, colocação, mas faltou emoção para que os ferros tivessem som.
Luis Rouxinol Jr. não esteve ontem ao nível a que nos habituou. É justo dizê-lo. Lidou dois toiros de Passanha. O da primeira parte, foi um grande toiro, que impunha respeito e nem sempre Luís André o entendeu. No entanto, foi com ele que conseguiu quiçá o ferro da tarde. O toiro arrancou-se pronto, o Jamaica recuou-lhe na cara, permitindo com que a inflexão à direita para procurar abrir-lhe o quarteio fosse menos descarada, o toiro rompeu pelo cavalo, saindo um ferro de recordar.
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