Há noites que se contam pelos troféus. Outras, pelos nomes. E há ainda aquelas que ficam na memória por dois momentos que, por razões bem diferentes, acabam por se sobrepor a tudo o resto. A última corrida da temporada no Campo Pequeno viu Miguel Moura, assinar uma daquelas lides que não precisam de explicação nem de exageros para se perceberem. Por outro lado, Pedro Maria Gomes fechou um capítulo da sua vida de forcado e passou o testemunho a Duarte Mira.
Pedro Maria Gomes: uma despedida dentro da arena
Há formas e formas de dizer adeus.
A de Pedro Maria Gomes foi feita como os forcados sabem fazê-la: dentro da arena, na cara do toiro e sem necessidade de grandes encenações.
O antigo cabo dos Amadores de Lisboa enfrentou o segundo toiro da ordem e resolveu a pega ao primeiro intento. E foi esta a sua última pega enquanto cabo.
Depois, chegou o momento que durante tanto tempo esteve inevitavelmente no horizonte, mas que nunca deixa de ter uma carga especial quando finalmente acontece: a passagem do testemunho.
Chamado à responsabilidade, Duarte Mira enfrentou o terceiro toiro da ordem. E resolveu a papeleta à segunda tentativa.
Nas restantes pegas, Gonçalo Maria Gomes abriu praça e consumou ao primeiro intento; Duarte Nascimento e José Duarte Batista, ao segundo; Tiago Silva, à quarta tentativa; e Francisco Mira, fechou ao primeiro intento.
O curro, da responsabilidade de António Raul Brito Paes, levou ao Campo Pequeno, um curro dentro do tipo da ganadaria. Em termos de apresentação, justo mas com trapio. Mas, as condições, principalmente do segundo da ordem, levou o ganadero a dar a volta à arena.
Miguel Moura: quando a naturalidade chega mais longe
Se Pedro Maria Gomes foi o protagonista emocional da noite, Miguel Moura foi, sem discussão, o seu protagonista artístico.
Moura tem uma forma de estar em praça que contrasta com muito daquilo que hoje se vê. Toureia. Com calma, tranquilidade e naturalidade. O momento vivido por este cavaleiro é tal que, faz parecer fácil cada vez que entra em praça.
Miguel iniciou a função com um primeiro comprido em sorte de gaiola e, a partir daí, foi construindo uma actuação onde nada foi deixado ao acaso. Desde os ferros, aos ladeios a duas pistas, aos remates das sortes, tudo foi surgindo com uma fluidez rara. Um toureiro de tal forma cuajado que tornou simples, o complicado.
Cada um destes momentos, fez o público, que preenchia quase por completo o Campo Pequeno, levantar-se das suas cadeiras para aplaudir o de Monforte.
Bons apontamentos dos restantes
João Moura Caetano teve também uma passagem interessante, numa noite em que cumpriu 20 temporadas como profissional, foi homenageado pela empresa gestora do Campo Pequeno.
Mostrou o toureio maduro que lhe reconhecemos, com bons curtos e uma brega distinta, voltando a formar um interessante dueto com o cavalo Campo Pequeno.
Ana Batista, no seu regresso às arenas depois do período de convalescença, foi crescendo ao longo da lide. Começou com alguns desacertos, mas a experiência permitiu-lhe corrigir, evoluir e terminar em bom plano.
Duarte Pinto teve uma actuação irregular, ainda assim digna, mas sem chegar a ser redonda.
Joaquim Brito Paes viveu uma noite de altos e baixos. Saudou no final, sem dar volta.
António Telles filho deixou bons curtos, com reuniões concisas e uma interessante conjugação entre juventude e classicismo.
Tristão Ribeiro Telles, último cavaleiro em praça, trouxe essencialmente, predisposição, atacando de largo e reunindo com emoção. Foram seus alguns dos momentos com maior impacto da noite.
Fique com a reportagem fotográfica:
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